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O surgimento de classes médias indígenas em sociedades altamente estratificadas: o caso da Bolívia

Autor:

Patricia Espinoza Revollo

Resumo:

Esta tese investiga o surgimento de uma classe média indígena entre 1975 e 2010 na Bolívia — um país caracterizado por crescimento econômico de longo prazo fraco e instável, alta desigualdade e persistentes clivagens étnicas e de classe. O estudo adota uma abordagem em dois níveis. Em primeiro lugar, concentra-se em rastrear o surgimento da classe média ao destacar os principais fatores de melhoria socioeconômica para os indivíduos. Com base em uma análise longitudinal de um Índice Socioeconômico (ISE) — a partir do qual a classe média é operacionalmente definida nesta tese — explico o surgimento da classe média como resultado de dois processos distintos, porém interligados: (i) um processo massivo de urbanização que atingiu seu auge em meados da década de 1980, aproximando os indivíduos de áreas favorecidas por políticas estatais; e (ii) uma mudança institucional em meados da década de 1990, consistente na criação de um novo arcabouço nacional que alocou recursos de forma mais eficiente em todo o país. Além disso, minha análise revela as diferentes trajetórias ocupacionais seguidas por indivíduos da classe média para acessar a nova estrutura de oportunidades, prosperar e integrar esse estrato social. Com base em análises intergeracionais e intrageracionais da mobilidade ocupacional, constato que, em um contexto de excesso de oferta de trabalho e com habilidades e capital econômico limitados, os migrantes encontraram meios de ascender social e economicamente em atividades como comércio, transporte e construção. Em segundo lugar, exploro em que medida o surgimento dessa nova classe média abriu oportunidades para os povos indígenas. Realizo uma contagem periódica da indigeneidade com base nas línguas faladas (indígenas e/ou espanhol) e na autoidentificação com grupos indígenas. Duas conclusões emergem desse exercício. Primeiro, a nova classe média proporcionou oportunidades para indivíduos monolíngues em línguas indígenas, independentemente de se autoidentificarem ou não como indígenas. Segundo, as identidades étnicas tornam-se mais difusas à medida que os indivíduos ascendem à classe média. Isso se evidencia pela perda do uso de línguas indígenas e por uma diminuição significativa na autoidentificação, ocorridas de forma marcadamente estratificada ao longo de apenas dez anos. Enfrento as complexidades da identidade étnica na classe média com base em um arcabouço conceitual de identidade social, que permite integrar de maneira sinérgica os debates sobre classe, etnicidade e modernização. Ao abordar as identidades sociais por meio da análise de estilos de vida diferenciados, verifico que os indivíduos da nova classe média apresentam identidades híbridas e segmentadas. Ou seja, combinam formas de vida indígenas/tradicionais e modernas que variam conforme seu nível socioeconômico, sem necessariamente caminhar para a assimilação cultural. Sustento que a criação de novos símbolos de status e formas de reconhecimento baseadas em idiossincrasias indígenas na nova classe média constitui uma ruptura categórica com formas históricas de exclusão e discriminação social, econômica e cultural baseadas na etnicidade. Em síntese, esta tese aprofunda a conceituação e a compreensão da classe média, contribuindo para a literatura crescente sobre classes médias emergentes em países em desenvolvimento ao oferecer um quadro mais complexo de sua expansão e da construção de sua identidade.