
Editor:
Barry Ames
Resumo:
À medida que as disciplinas acadêmicas amadurecem, elas passam cada vez mais a seguir seus próprios rumos, progredindo de maneira um tanto kuhniana em direção a questões cada vez mais específicas, de interesse principalmente para os próprios membros da disciplina. Embora a pesquisa em ciência política no Brasil tenha se tornado mais rigorosa nos últimos 30 anos, ela não perdeu suas conexões com os problemas enfrentados pelo próprio país. Considere, como exemplo, a evolução das pesquisas sobre o sistema partidário brasileiro e as relações entre Legislativo e Executivo. Por volta da virada do milênio, a visão dominante sustentava que o Brasil tinha partidos demais, que a maioria deles existia apenas para distribuir benefícios e patronagem, e que o impasse político era a regra, e não a exceção (ver Lamounier 1995; Mainwaring 1999; Ames 2001). Com a euforia dos primeiros anos dos governos do PT, surgiram argumentos de que os presidentes poderiam administrar bem o sistema e de que os partidos eram razoavelmente coerentes do ponto de vista ideológico. No final das duas primeiras administrações do PT, emergiu uma posição intermediária (especialmente nos trabalhos de Carlos Pereira neste volume), defendendo que o sistema funcionava precisamente porque o Executivo podia distribuir benefícios e patronagem. À luz da profunda recessão brasileira após 2014 e da magnitude dos escândalos de corrupção, todos esses argumentos estão passando por uma reavaliação. Concomitantemente, o crescente envolvimento do sistema judiciário na política, evidente na Operação Lava Jato, estimulou pesquisas necessárias nessa área. Uma segunda área notável como resposta acadêmica à política cotidiana é a das instituições participativas, tanto o orçamento participativo quanto o uso de conselhos nacionais de políticas públicas. As primeiras experiências com orçamento participativo, um processo patrocinado pelo PT em que grupos de bairro recebem o poder de controlar parte do orçamento de investimentos de um município, geraram uma resposta acadêmica entusiasmada. No nível micro, o orçamento participativo aumentou a participação de mulheres e de pessoas de baixa renda na política local. No nível macro, prometia maior eficiência nos gastos municipais. À medida que o orçamento participativo se expandiu para além dos municípios governados pelo PT (originalmente concentrados no Rio Grande do Sul), e à medida que os governos Lula instituíram as Conferências Nacionais — principalmente em áreas de políticas sociais — para ampliar o papel da sociedade civil na formulação de políticas, os estudiosos passaram a adotar uma abordagem mais nuançada (ver nossos capítulos de Wampler e Romão, Abers e von Bülow, e Avritzer). Hoje, eles destacam não apenas o caráter “de baixo para cima” dessas instituições participativas, mas também sua dimensão “de cima para baixo”, isto é, a capacidade de grupos partidários de manipular as conferências para maximizar seu valor simbólico para o governo em exercício.