Autor:
Carlos Henrique dos Santos Ruiz
Resumo:
O período de transição da Ditadura Militar brasileira, conhecido como Abertura Política, não constituiu um ato monolítico, sendo influenciado por disputas e conflitos tanto no interior da sociedade quanto no bloco no poder. De fato, os militares mantiveram o controle ao longo de todo o processo, garantindo a preservação de parcela significativa de seus interesses. Contudo, o resultado final não ocorreu conforme o planejado, pois a ideia inicial de distensão, baseada na reforma da institucionalidade vigente, acabou sendo deslocada para um processo de redemocratização que culminou no fim do regime. Em decorrência disso, parte dos militares demonstrou descontentamento com os rumos que o processo vinha assumindo. Para esses setores, era fundamental a manutenção dos valores e ideais do Golpe Civil-Militar de 1964. Uma dessas frações, ligada aos segmentos mais linha-dura da direita militar, organizou-se em torno do jornal do grupo Letras em Marcha e, por meio de suas páginas, passou a pressionar pela defesa e preservação do modelo político do regime. A presente tese parte da hipótese de que o periódico, ao perceber a possibilidade de esgotamento da institucionalidade oriunda do golpe, mobilizou, por meio dos aparelhos de hegemonia, ações políticas destinadas tanto a pressionar e influenciar o processo quanto a lançar seus próprios candidatos em disputas eleitorais, com o objetivo de legitimar e manter a Ditadura Militar. Ao final, contudo, o jornal não obteve êxito. Para este estudo, foram utilizados exemplares do Letras em Marcha publicados entre 1977 e 1985, com foco nos artigos que abordavam direta ou indiretamente o processo de Abertura Política. A análise buscou compreender de que forma se desenvolveu sua ação política em defesa da institucionalidade do regime. Nesse sentido, é possível observar uma crescente radicalização do discurso do grupo, marcada pelo fortalecimento do anticomunismo, pelo aumento dos ataques aos opositores, pela defesa da memória do golpe e do crescimento econômico, bem como, de forma curiosa, pelo uso recorrente do conceito de democracia na legitimação da Ditadura. Esses elementos indicam que o Letras em Marcha
e seus colaboradores concebiam o regime militar — com sua institucionalidade autoritária e eleições indiretas — como uma forma de democracia, ou, mais precisamente, como uma democracia à sua maneira.