
Autor:
Isabel Leite
Resumo:
Ao longo do século XX, uma das estratégias para suprimir a luta de classes foi a noção de medianização da sociedade pela criação de uma “classe média” que se compreendesse como elite por mérito de renda e consumo, mesmo que sem acumulação de capital propriamente dito. Essa classe média, ao mesmo tempo que se aliava à burguesia, fornecia um referencial aspiracional de sucesso para a classe trabalhadora. A classe média brasileira se conformou entre os anos 1930 e 1970, consolidando-se nessa última década e estagnando-se ao longo das duas décadas seguintes. No entanto, os valores não só econômicos, mas também morais e culturais associados a essa classe foram desafiados pela ascensão de uma dita “nova classe média”, pelo processo de massificação do padrão de consumo desse grupo com a massificação do acesso a bens de consumo e serviços antes exclusivos da classe média “tradicional”. O esvaziamento dos símbolos do fetiche da classe média puseram em cheque a sustentação que essa forma social conferia ao apaziguamento da classe trabalhadora no conflito de classes. No seu lugar surge então o empreendedorismo, que vem sendo bem sucedido na sua adoção como ideologia dominante com potencial para cumprir o papel que a classe média antes cumpria no alinhamento dos trabalhadores com os interesses da burguesia, mas também cumpre um papel adicional: de internalização do próprio conflito de classes na conformação de um homem-empresa que se entende como burguês-trabalhador.